melhor filme sobre relacionamento abusivo


o filme trata de um relacionamento abusivo entre tony e georgio. o filme começa com a fotografia dos alpes - duro e frio - quando, esquiando, tony se acidenta e tem um problema no joelho. a associação com o lado emocional começa sutilmente aqui. o filme é francês, e joelho, em francês, é genou. foneticamente, je (eu) + nous (nós). um problema que vai surgir justo nessa esfera entre o eu e o nós, que se confunde, se embaralha, que se torna uma coisa só. um 'eu', um 'nós', e um relacionamento abusivo entre 'nós'. muito sutil (e eu amo isso!), assim como sutil é a atuação desse homem na relação.

ora, veja: o joelho permite que avancemos na vida, que não nos imobilizemos, certo? o bebê, por exemplo, após engatinhar, torna-se grande e ocupa a posição vertical, expressão de dignidade. é simbólico que a personagem, que será uma refém de um relacionamento abusivo, sofra o impacto justo nesse lugar, não? como diz a médica que atende tony após o acidente: "às vezes, perdemos a nossa expectativa de vida. não sabemos aonde vamos, mas nos apressamos. nunca olhamos pra trás, então caímos".

tony foi levada a confundir o que era ela (eu = je) e o que era o outro, amalgamando tudo num grande 'nós' (nous). é levada a abrir mão dela, da sua potencialidade, da sua dignidade, e estanca na vida ao se deixar inundar pela complexidade de georgio. ela não dobra mais os joelhos, se paralisa por ter se dobrado à vontade do outro.

mas o fato dela estar numa clínica, num tratamento intensivo de recuperação do joelho, mostra a vontade dela de emancipar-se.

nesses 3 minutos e meio de filme, ele já mostra a que veio. é inevitável você lançar um "uau!".

mas vamos lá! a relação entre tony e georgio começa com a dubiedade do algoz, muito sedutor (as always!), dizendo lembrar-se dela, a que tem nome de homem, mas, na sequência, a convidando para tomar um café na madrugada após saírem de uma boîte. ou seja, o jogo de sobe e desce se inicia: puxa o tapete dela - da que tem nome de homem! -, para depois fazê-la se sentir especial com um convite tão inusitado, surpreendente. e ele a leva para a casa dele, para mostrá-la parte da sua grandiosidade.

como normalmente são os homens abusivos, ele é inteligente, não tão bonito, mas interessante (oi, vincent cassel!), comete violências em tom de brincadeira (como quando a chama "brincando" de "vadia gorda" ao perder uma aposta), faz a mulher se sentir a mais especial de todas ("sim, fiquei com todas essas modelos, mas nenhuma delas se compara à você"), assim como a faz acreditar que ele é o príncipe encantado; oferece mundos e fundos à mulher, prende-a numa "gaiola de ouro", para depois depauperá-la física e emocionalmente, debochando do objeto "amado" (entre aspas mesmo, pois não existe amor, e sim, manipulação!). fazem filho, "ils font merde aprés merde", e depois 'viram o jogo' e se vitimizam, fazendo a mulher se sentir a pior pessoa, como se ela fosse culpada por tudo o que dá errado na relação, e a se submeter cada vez mais. e, por tudo isso e muito mais, costumam ser "o rei dos imbecis", como ele mesmo se autointitula.

a mulher, por sua vez, tenta de tudo para recuperar o seu principe encantado. e quanto mais tenta, mais se afunda. fica de joelhos suplicando a volta desse homem e, de joelhos permanece, como um bebê, inofensivo e sem defesa, dominada. deixa de lado a profissão, excede no uso de álcool, e perde a paz.

não contarei o resto para não dar spoiler, mas está disponível na plataforma looke, sessão 'cult'. vale muito à pena!

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